03 maio, 2010


Clarice Lispector, me reapareceu viva em biografia recentemente lançada, de título "Clarice" (Note-se a vírgula).

Pessoa complicada e, para muitos, escritora dificil, sempre vi em suas obras uma existência emblemática de mulher em luta permanente com a própria indentidade. Com os pais em fuga de uma Ucrânia aterrorizada pelo movimento de ataques a minoria judaica, ela não teve certidão de nascimento no torrão natal. Naceu em viagem. Nasceu Chaya e, no Brasil, tornou-se Clarice. Da infância pobre no Nordeste, migrou adolescente para o Rio. Adulta, correu o mundo com o marido diplomata. Mãe de dois filhos e separada,fixou-se no Rip e ali morreu em 1977, depois de muitas crônicas, contos e romances, que lhe deram merecida fama, por aqui e no exterior, não porém, segurança e paz.

Clarice fascinava pela beleza física e pelo mistério de esfinge às vezes indecifrável, tanto no seu jeito de viver. Parecia uma estrangeira no planeta Terra, segundo exata observação de um amigo seu. "Dava a impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida, onde há greve geral de transportes."


Perdida, mas sempre em busca de si mesma. Creio que ler Clarice é sempre um convite à coragem de ser. E esse mergulho no fundo de si mesmo, por mais dificil que seja, só pode fazer bem a quem se quer adulto, inteiro e definido.

[Aldo Vannucchi]

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